domingo, 21 de setembro de 2008

A velocidade do desejo

Ela amava-o definitivamente.
Já não podia escondê-lo mais de si própria. E era um amor imenso, capaz de cobrir a cidade, a floresta, o país, o mundo. Um amor tão grande que às vezes quase acreditava gostar mais dele do que... dela.
Não, não tinha nada de insano, pensava. Era puro, como os flocos de neve. Verdadeiro como o acto de nascer e o de morrer.
Amá-lo era a melhor sensação que já tinha sentido. Com ele voaria para qualquer céu, voaria a pique, faria acrobacias desnecessárias só pelo ínfimo prazer de o acompanhar, de o amar.
Um amor invencível percorria-lhe as veias, os gânglios.
Ela era feita de sangue, de água e do amor que ele lhe inspirava. Um amor desesperadamente volumoso que não conseguia mastigar de boca fechada...
Com ele conheceu o desejo, o sonho, a vontade de sorver o presente e de traçar o futuro.
Parecia que nada nem ninguém eram tão grandes, tão importantes... só ele.
E ele sentia-se assim. Amava-a com a mesma intensidade, a mesma pressa de quem quer viver tudo de uma vez.
Já não importava o que pudessem pensar, os conselhos que pudessem dar... Só amá-lo e sentir-se amada bastava.
De mota percorreram o Centro, o Sul, à direita, à esquerda, em rectas, em curvas... Em estradas nacionais, vias rápidas, auto-estradas... Passaram a fronteira. Regressaram.
Voavam em duas rodas por paisagens de mar, por lezírias, por terras de pó, por desfiladeiros, matas e ruas da cidade.
Sempre juntos, sempre abraçados... Enquanto as rodas giravam, giravam... até a adrenalina os enlouquecer . E as rodas giravam, giravam... até o sono chegar. E sempre girando, curvando com a ponta do nariz a escassos centímetros do chão sentiam-se mais perto do céu... e o amor crescia, crescia. Galopava, sempre apressado, livre de consciência, de pareceres, de regras, de sensatez.
O amor era tão grande que eles se julgavam os donos dele, como se o mundo lhes coubesse na palma da mão... Escutavam-se entre roncos de escape, rateres e música...
O amor deles era feito de música. Sempre fôra. De música do tempo deles e do tempo de outros.
E o amor continuava, em primeira, segunda, terceira, quarta... e quinta. Sempre com com a mão no acelerador. O pé raramente pousava no travão. Quando a curva se avistava apertada demais, quando algum obstáculo se lhes deparava, eles preferiam ir travando com a caixa das mudanças, tinha mais classe, era mais difícil mas mais suave... Mal a curva se desfazia, o obstáculo desaparecia, a segunda, a terceira, a quarta e a quinta eram metidas e o pulso forçava o acelerador. E o amor corria, fugia... disparava, mesmo sem turbo. Com um simples toque de embraiagem e alguma magia erguia-se no ar como um cavalo...
Era amor. Amor.
- Vamos ficar juntos para sempre... Para sempre... – Dizia ele.
- Até sermos bem velhinhos... – Completava ela.
- E quando o primeiro morrer... – Continuava ele.
- Não digas isso! Não quero pensar... – Interrompia ela.
- Quando o primeiro morrer... que devo ser eu... – Insistia ele.
- Porque dizes isso? Não, não serás tu... – Contrariava ela.
- Porque tu és tão forte... Quase nem a dor te perturba... Nunca conheci ninguém assim... – Acrescentava ele.
- Posso ser forte mas não sou imortal... – Prevalecia ela.
- Quando o primeiro morrer... Podíamos fazer um pacto, uma jura... – Tornava ele.
- Vais dizer que... – Ela sorriu.
- Vou! O primeiro podia vir visitar o outro... Matar saudades... E terminar com o grande mistério, contar ao outro o que esperar... – Ele sorriu.
Ainda com o sorriso preso nos lábios ela olhou-o com todo o amor de dimensão impossível que sentia por ele. Pensava como era bom amar um homem que a amava ao ponto de uma vida com ela não lhe chegar... De como era bom amar um homem destemido...
- Não te vais assustar por me ver, pois não? – Perguntou ele.
- Nunca... Vou adorar! Prometes que voltas mesmo para me visitar? –Questionou ela.
- Nunca me esquecerei, aconteça o que acontecer...Prometemos. – E ele fez-lhe uma festa na perna, segurando o guiador com a outra mão. Como de costume ela respondeu-lhe apertando-o com as pernas.
- Mas, antes, promete-me que vamos morrer bem velhinhos... bem velhinhos... – Brincou ela.
- Nunca antes dos noventa, está bem?! – Concordou ele.
E o amor seguiu viagem, a velocidade cruzeiro, para desfrutar da paisagem. De vez em quando o amor abrandava, não de intensidade mas para se deleitar com os seus pequenos grandes prazeres, palavras, pensamentos, gestos, sonhos... promessas.
A estrada não tinha sinalização, cruzamentos ou sinais STOP... Era facilmente recta com algumas curvas agradáveis de contornar...
O sol ia-se pondo, descia até quase pousar sobre os capacetes... Sobre o amor.
Os raios das rodas brilhavam, irradiavam nos seus contínuos movimentos circulares...
Os quilómetros iam passando, passando e o amor de tão faminto comia-os com uma vontade insaciável, crendo ter estômago para muitos mais.
O amor sonhando acordado não reparava que os pneus se iam queimando no alcatrão, que se iam desgastando irremediavelmente.
O amor era jovem, entusiasta, inconsciente, apenas queria viajar, conhecer sempre mais longe...
Moldável. Era um amor com coração de manteiga, com hormonas descontroladas. Curioso. Um amor cheio de curiosidade. Sôfrego, fogoso e cego. Irresistivelmente cego e festivo. Tinha muito fogo de artifício... Mas era autêntico. Prevaleceu por muitos quilómetros, muitas estradas, muitos desejos, muitos sonhos, muitos planos... Prevaleceu mesmo depois dos pneus se gastarem, obrigando as rodas a girarem em sofrimento... Quando muito mais à frente o combustível terminou, a mota foi empurrada a quatro braços... O amor foi levado ao colo, às cavalitas...
A música tocava... Este era um amor feito de música do tempo deles e do tempo de outros.
O amor foi carregado, arrastado e quando as forças escassearam...
- Nunca pensei... Juro. – Confessou ele, triste.
- Acreditei que fosse para sempre... Sinto-me enganada... – Segredou ela, mais calma.
- Também eu... Nunca amei assim ninguém... E não vou amar. Não quero amar assim mais ninguém! – Assegurou ele.
Quando se voltaram para procurar o amor no banco em que o deixaram a repousar ele já lá não estava. Tinha ido embora pelo seu próprio pé, cansado de ser levado ao colo. Julgou-se um fardo.
A mota parou. Não arrancava mais.
- E agora? – Indagou ele.
- Não sei... Vou tentar apanhar boleia. Preciso de voltar para casa... Parada aqui não posso ficar... – Decidiu-se ela.
- Talvez seja o melhor... De qualquer forma, vou tentar consertá-la... Talvez um dia ela volte a andar... – Sussurrou ele.
Foi a última vez que ela o viu.
Ela não podia esperar. Não queria esperar. E também não ia procurar o amor que se tinha lançado ao caminho sozinho, sem se despedir deles.
Se a mota um dia voltasse a rodar, a lamber a estrada, a contar quilómetros e se o amor voltasse... tudo bem. Mas para já, parada não ficaria. Iria tentar apanhar boleia. Era mais inteligente. E a inteligência, pelo menos, ainda não tinha partido sem se despedir. Permanecia fiel, a seu lado.
O amor... para onde teria ido aquele inconsciente?
Em frente havia um cruzamento, o primeiro cruzamento... As tabuletas não tinham qualquer indicação inscrita, estavam em branco... Pode ter-se perdido...E mesmo que quisesse regressar não saberia como.
Soube que a mota tinha conserto mas ela agora anda de carro... As rodas giraram noutro tempo.
No tempo deles.
O amor não se perdeu. Escondeu-se... Fê-lo de propósito. Lá devia ter as suas razões...
Será que se ele um dia morrer primeiro volta para a visitar? – Foi o último pensamento.
Escrito e ilustrado por mim

2 comentários:

Pandora disse...

Muito fixe a ilustração...Já conhecia o texto.

Anónimo disse...

Eu vivo por amor, tentando a cada dia, adiar o desencantamento do seu fim.
Belo como sempre!
Beijão!